"O amor é a força mais sutil do mundo." -- Mahatma Gandhi

domingo, 9 de dezembro de 2012



Boa noite, Jesus!

 
Jesus, o Senhor disse um dia que quem a mim não recebesse
em seu reino não entraria, mas olha pra mim!
Eu sou feio, pobre, sem graça... 
Passo os dias nas ruas e as noites aqui mesmo, na praça.
Além disso, olha bem, eu sou escurinho.
Quem vai querer me fazer um carinho?
Só o Senhor mesmo, Jesus, só o Senhor!
Por isso eu quero lhe pedir um favor:
na próxima lista que o Senhor chamar coloca meu nome,
 vem me buscar. 
Olha, eu não tenho sapatos, 
minhas roupas estão sujas e gastas, 
mas a minha alma, eu garanto, é casta!
A cola é só pra enganar a miséria, a fome...
Mas a minha alma não cheira. 
Alma não come!
Coloca meu nome Jesus, eu quero ir pro céu. 
Não é justo que eu fique jogado ao léu.
Mas me chame de noite, está bem?
Porque assim, no caminho, eu vejo as estrelas bem de pertinho.
Elas são tão bonitas!
São elas que tomam conta de mim quando venho dormir.
Eu sou tão sozinho! Eu não tenho ninguém! 
A minha mãe me deixou, disse que voltaria, mas nunca voltou. 
A minha mãe me esqueceu.
E o meu pai... dos dois que eu tive nenhum era o meu.
Meu pai de verdade nem sei onde vive, não sei o seu nome...
Pra ele sou um filho que nunca nasceu.
Está vendo, Jesus, minha cruz é pesada!
Aqui embaixo, eu não conto com nada.
O Senhor é minha última esperança.
No que o Senhor disse eu tenho confiança: 
"Vinde a mim..." Aquelas palavras bonitas que o Senhor sabe bem,
que falam que o céu me pertence também!
E então, meu Jesus, o Senhor me entendeu?
Mas não se preocupe, se não der, não deu.
Se o Senhor que é o Senhor, pra ir para o céu
carregou sua cruz, quem sou eu pra ir assim, só por querer... 
Eu compreendo, Jesus. Depois, amanhã é outro dia.
Quem sabe alguém possa vir e querer me levar
pra uma casa, pra um lar... 
Alguém que traga nos olhos um brilho de estrelas,
alguém cheio de luz, 
alguém que conheça o Senhor,
alguém transbordando de amor!
Boa noite, Jesus!

                     Isabel Pakes




terça-feira, 27 de novembro de 2012






Deslizou a luz do dia
pelo manto da noite
respingando estrelas.
Voltará ao arrebol
para recolhê-las
e se recompor em sol.

                                                    Isabel Pakes




sábado, 17 de novembro de 2012




“Lá”

 
Existe um lugar de encantamento em que eu desperto sempre que o cansaço terreno carrega comigo para as profundezas do sono. Azul! Muito o azul é o céu e o sol translúcido lampeja dourando a Vida - única e inesgotável -  na limpidez das águas fluindo, tangendo a tudo e a todos, equiparando-os.  Lá não existe o outro. Todos são Um!

As terras estendendo-se em verdes a perder de vista têm o aspecto de um vasto tapete macio e sedoso em que se pode caminhar milhas sem se sentir os pés. Essas terras não germinam ervas daninhas e as flores que delas brotam são intensamente perfumadas, que o ar tem o gosto do néctar. Lá, em se respirando se alimenta!

Os animais não temem os homens. Antes, se harmonizam com eles, num contínuo processo de decantação da vida. É que os homens de lá vivem com serenidade. São sábios nos costumes. Não abrem feridas na terra, não envenenam o ar, não sangram as águas. São em verdade o que são. Não o que a vaidade os levaria a ostentar. Plenamente, Humanos. Reconhecem-se semelhantes na capacidade de sentir e de amar, semelhantes na luminosidade que emanam, porque se respeitam filhos do mesmo Pai. E as crianças, todas saudáveis, recendem à alegria!

Nesse lugar, onde a paz é uma constante, tudo causa a impressão nítida de transparência. Tudo, desde as pedras...  E ao vir a noite, uma infinidade de estrelas multicoloridas e um luar resplandecente,  de beleza incomum, asseguram-me que não erro em minha visão.

Quando chego lá, levada pelo abandono de minha consciência, pareço levitar tal a leveza que assumo, ao mesmo tempo, fortalecida pela energia que concentro. E quando volto de lá, à revelia de meu íntimo, só um pensamento me ocorre: Viver! Viver intensamente a esperança e nunca, nunca permitir que as agruras deste tempo demovam de mim a fé em um dia verdadeiramente despertar “lá”, nesse mundo bem melhor! 

Isabel Pakes

Imagem Google

sábado, 10 de novembro de 2012




Déjà vu


Um olhar ocasional, 
um frêmito espontâneo
e o coração pulsa mais forte.
O corpo vibra. Emoção...
Energia. Luz que se emite e permeia...
Flash de memória transcendental. Déjà vu.
Um instante de intensa euforia
num sentir que não se sabe ainda discernir.
Centelha que brilha e se recolhe sob o véu do tempo, 
para num outro dia ressurgir. Magia.
Incógnita que se busca e se faz saber
ao seu tempo de compreender. Consciência.
Almas em aparente distanciamento caminho afora,
lado a lado caminho adentro. "Ímãs". 
Comprazem-se no riso e arrimam-se na dor...  Equilibram-se
no ponto de "aderência" - afinidade - sintonia. Harmonia. 
Aprimoram-se... Ajustam-se... E se entrelaçam, enfim.
Se não ainda, por mais uma vida inteira,
numa outra vez... nos mesmos "eus". 
Que a carne não consome 
o que no espírito se concebeu. Amor.


                                               Isabel Pakes




segunda-feira, 29 de outubro de 2012



Altas horas...
 Noite quente de luar,
meus olhos me cobram o sono,
têm pressa de te sonhar.


                                             Isabel Pakes


quarta-feira, 17 de outubro de 2012




                                      Desafinado


                                            
Antes, o diapasão. O tom
                           afinado à íntima vibração.
                           Agora, um sibilo frouxo e distorcido
                           que erra pelos frios labirintos 
                           de ouvidos que se fizeram moucos
                           (temor e nulidade).

                            Ruídos externos e dissonantes
                            desvirtuaram-lhe a sonoridade
                            e o canto, antes doce como o mel
                            hoje é um silêncio que ressoa...
                            Desafinado. Mórbido. Mordaz.
                            (fel)

                                                      Isabel Pakes

  




segunda-feira, 1 de outubro de 2012



A avezinha do beiral

          Pousava ali, às tardes, a avezinha do beiral. Ia levar seu canto, seu alento... De repente, um ruído surdo cortou sua voz. Ruíra, por fim, o velho e soturno sobrado, tanto fustigar-lhe as ondas de mil pensares em turbilhão. Não mais assombraria o poeta com suas lembranças mórbidas, cheias de nódoas e farpas. Não mais. Sob os escombros das lôbregas paredes esfacelaram-se os seus desconfortos, seus entraves. Ele, o poeta, escapara ileso. Desperto do pesadelo, abriu-se à vida como olhos de condor. O coração pedia luz. E a vida resplandecia em cores, de horizonte a horizonte, sob o infinito azul, onde o tempo é sempre alvor. Em tempo, rebuscou seus anais, reviu seus feitos, atualizou conceitos... Revisou sua história com um novo olhar. Havia muito a acrescentar, novas estradas a percorrer, metas a alcançar. 

     Cálido soprava o vento. Em correntes ascendentes espalhava na atmosfera o perfume das flores que aspirara na primavera, como a receber em festas a nova estação. Hora de retomar-se, beber da própria fonte a água revitalizante, percorrer os campos interiores... Extrair o joio, aventar as ramas... Dourar a fronte sobre os trigais dos sonhos. Colher os frutos amanhados no tempo do sonhar risonho, enxertados de poesia no coração da semente, vingada à força da Vida, aos ralos raios de sol que, clandestinamente, adentravam o velho sobrado pelas fendas das janelas cerradas.

         Agora, sem mais paredes a cercear-lhe os ideais, sem mais o ranço da névoa densa a ofuscar-lhe a vista, sem mais a trava da solidão a emperrar-lhe os passos, lá vai o velho poeta, retemperado à luz clara dos dias de verão. Coração desassombrado compartilhando a colheita, a alma fértil germinando novos versos... Enquanto a avezinha se eleva sobre os escombros e segue-o... de longe... a cantar... 

Isabel Pakes






sábado, 22 de setembro de 2012



Primavera

Doce Primavera, 
conto meu tempo no teu tempo.
A cada vez que renasces eu somo...
Somo vida, ano a ano, em tua vida 
eternamente renascida. 

                                              Isabel Pakes



sábado, 1 de setembro de 2012



À Lua

Minhas reverências à Lua.
Não sendo dotada de luz própria
se reveste da luz do Sol
para abrilhantar as nossas noites
e, quando ele chega, se desnuda
sem se importar que a vejamos
pálida e fria,
e humildemente se retira
pela porta dos fundos.

                                                 Isabel Pakes

segunda-feira, 27 de agosto de 2012





Abriram-se as cortinas
como grandes asas janela adentro.
Feito pássaro invisível, 
trouxe um perfume de flores e se foi,
 o vento. 

                                                Isabel Pakes






sexta-feira, 17 de agosto de 2012



"Se alguém te perguntar 
o que quiseste dizer com um poema, 
pergunta-lhe o que Deus quis dizer
 com este mundo... "

                    ~ Mario Quintana

Foto Nasa


quinta-feira, 9 de agosto de 2012


Intuição


Madrugada. Estranhezas...
O silêncio que ao longe vibra 
ressoa em mim, sonoro, 
perfumado de rosas. 
Intuição...? Deixo-me guiar 
e, entre versos e prosas,  
as encontro em tuas cartas,
perpetuadas na fotografia 
lindas, frescas, alvas! 
Magnetizam-me... 
Afago-as e respingam em mim 
sensações, impressões... sentimentos. 
Segredam-me...
E, o silêncio que de longe me tange, 
traduz-se... permeado em tuas rosas orvalhadas 
- o poema mais bonito brotado das tuas mãos -
e o que, "silente", resguardas,
na sutileza das pétalas, 
revela ao meu coração,
enquanto minh'alma se entorpece
da essência das tuas... palavras,
e os meus olhos se umedecem,
orvalhando-se também.
  
                                           Isabel Pakes




sábado, 4 de agosto de 2012



Apatia 

A noite me viu tão triste que chorou estrelas... 
E enviou-me a brisa que me sussurrasse um acalanto, 
adormecesse em mim tanto quebranto,
tanto desejo de não ser...

(Tanta querença e este desencanto!) 
  
Mas o meu ego, surdo e cego, recoberto por escamas, 
dessas que a alma tece para abafar as chamas, custava serenar. 
  
Então veio a alvorada! 
Adiantou-se em sua hora em meus cuidados, 
beijou-me a boca, a fronte, os pés... 
Que a luz viesse dissipar-me as brumas, 
se infiltrasse em minhas amarguras e me sanasse, enfim. 
Minúsculos sóis se pontilharam, às dezenas, 
na transparência das gotas orvalhadas e em mim...
em mim, nada!

(Tanto ardor e este frio!) 
  
E me encontraram as Onze-Horas
ainda recolhida ao desconforto. 
Essas florinhas tímidas se me abriram
com uma humildade santa 
que quase, quase me alentaram, 
não fosse em mim a dor maior que a fé, neste instante.

(Tanto néctar e este acre!) 
  
Tanta vida e esta apatia! 
Aonde foi a seiva que me vicejava e o mel que me adocicava?
Aonde foi você? 

                   Isabel Pakes (1966)





sexta-feira, 27 de julho de 2012




Sobras de amor
   
 
Há sobras de amor
rolando pelos cantos das casas inférteis
enquanto crianças, órfãos de afeto,
se abortam pelas sarjetas.
 
Não, isto não é poesia,
apenas um pensamento,
um desconforto da alma
num ter que viver terreno.
Igual quando vejo laranjas
apodrecendo nas árvores,
enquanto um espantalho mesquinho
afugenta os sanhaços.

                                                 Isabel Pakes





segunda-feira, 9 de julho de 2012





Só o amor... 

Em noites atribuladas quando a tristeza me assalta
e a insônia me castiga, volto pro meu passado 
buscar lembranças antigas... E sou de novo a menina
de olhos meditativos a contemplar as estrelas
e ao vê-las tão distantes neste Universo sem fim
onde tudo o que é circunstancial desvanece, 
penso o instante passante a dissolver-se no tempo,
no eterno tempo de Deus onde só o amor prevalece
e a tristeza não faz razão. Então, de alma leve, tranqüila,
fecho meus olhos de menina e, finalmente, adormeço.

                           Isabel Pakes








domingo, 1 de julho de 2012



Tolo

Tolo coração o que em teu peito bate
à mercê dos comandos do teu ego,
pensando-te passar por inocente
dos descompassos que invente.
Pois sendo o seu pulsar tão discrepante
do teu discurso e proceder,
ele mesmo te revela... incoerente.
Fazendo de ti mesmo o teu próprio oponente.

                                              Isabel Pakes




domingo, 24 de junho de 2012



Haikai

                                                  Dois sabiás saltitantes,
                              canto alegre e cativante...
                              Namoro de passarinhos.
     
                                                           Isabel Pakes



sexta-feira, 8 de junho de 2012




Ascensão
  
Do horizonte remoto 
o ser - cravado - aguarda 
o supremo sopro cósmico. 

Restam poucas pedras. 
Já os fiéis se aproximam... 
  
Luminárias às mãos se identificam 
e se multiplicam 
ao largo do grande templo 
que a seu tempo se conclui. 
E à dispersão da noite 
se possibilitam ascender os degraus
que dão acesso ao imenso portal. 
  
A escadaria é íngreme. Sabem, sobem.  
O patamar é estreito. Creem,
avançam. E na escalada, 
um a um, se agitam.

                                         Isabel Pakes





quarta-feira, 30 de maio de 2012



Entre o tempo e o acaso

De quando em quando ela relia o seu “caderno de recordações”, deixadas pelos amigos na adolescência “... para que mais tarde, ao folheá-lo, lembre-se com carinho...” Porém, faltava-lhe uma folha, a primeira. Ela a arrancara num ímpeto de desencanto e, pelas mãos de um amigo comum, a enviara junto de outras lembrancinhas, dentro de uma caixinha azul embalada como para presente, àquele que nela havia deixado a sua “recordação” e que, então, encontrava-se numa cidade distante, para onde fora buscar a realização de um sonho, mas, lá, diante de novas e melhores perspectivas, o transmutara... e lá permanecera. E ela parara de devanear, desviando o curso do rio de sua vida. Depois disso vira-o muito raramente, por acaso e à distância, quando em visita aos parentes, ele vinha à sua cidade. Todavia, no “caderno”... 

Ao contrário do que pensara, a ausência daquela “recordação” mais a fazia recordar... Inquietava-a mais e mais, a cada vez que o folheava. Intrigava-a. Se, pelo menos, ela se lembrasse do que ele teria escrito... Sempre tivera ótima memória, como fora esquecer? Aquela folha existiria ainda, quem sabe largada no fundo de uma gaveta, num velho armário... Haveria possibilidade, mesmo que miraculosa, de recuperá-la e reler... e saber... ? Ah, parca esperança! Parca, mas esperança.

O tempo avançava... Naquela tarde, a dor trespassava o coração de uma casa em luto, bem perto de onde morava, e ela fora prestar sua solidariedade. Sobre uma caixa de fotos, as lagrimas de uma mulher se derramavam inconsoláveis, dividindo com ela as imagens de suas lembranças, e uma criança pequenina foi até o armário, pegou outra caixa de fotos e a entregou em suas mãos. “Veja esta caixa, você.” Mas, ao colocar a mão dentro da caixa para pegar um maço de fotos, seus dedos pinçaram uma folha dobrada, em meio a elas. De pronto e trêmula, ela reconhecera aquelas bordas em linhas vermelhas que ela mesma traçara em cada página do seu “caderno”, havia mais de três décadas. Isto é meu! Exclamou eufórica, esquecida da razão por qual se encontrava ali naquela hora, para espanto da dona da casa, que por alguns minutos “suspendera” suas dores. Como, seu!? Dentro da minha caixa... Não pode ser seu! E o que é isso, que eu nunca vi?

Mas, era dela, sim! Aquela folha! Aquela “recordação”! Como fora parar dentro daquela caixa de fotos, depois de enviada para longe e há tanto tempo, vagas suposições... Mas, era fato que aquelas fotos vieram de uma outra casa, dali mesmo, de sua cidade, onde, num dia de grande faxina, uma caixa de guardados fora encontrada dentro de um velho armário. Um tanto disforme, cheirando a mofo e, sem mais razão de ser mantida, como pensara quem a encontrou, fora lançada ao fogo com tudo o que continha. Dela, nada restara. Aquela folha, provavelmente, estaria dentro dela e, se escapou do fogo, fora obra do acaso. Explicação que lhe deram. Obra do acaso também, a folha passar desapercebida a outros olhos, sabe-se lá por quanto tempo, e ser encontrada por ela, dentro daquela caixa de fotos, onde por acaso foi parar e que, casualmente, a criança entregara em suas mãos.

Assinada e datada por ele, sob uma frase... um pensamento poético dele, aquela folha continha a transcrição de uma poesia de J.G. de Araújo Jorge. Casualidades ou não, fato concreto é que por mais de trinta anos resguardada entre o tempo e o acaso, aquela “recordação” retornou às mãos dela, retomando o seu lugar no “caderno” e, casualmente, tal como diz o poeta em uns dos seus versos, quando...  “....quando o tempo branquear os teus cabelos hás de um dia mais tarde, revivê-los nas lembranças que a vida não desfez...”.

              Isabel Pakes







segunda-feira, 21 de maio de 2012

 
Retrato falado

De olhar expressivo 
que o tempo, parece, não quer violar. 
Em estado de novo, sem jaça. 
Como se os ventos de outono 
jamais hovessem soprado. 
Como se o brilho da luz da primeira hora 
nele tivesse se perpetuado. 
  
De sonhos azuis 
onde ilhou seu castelo 
e com seu príncipe valente 
para sempre se escondeu. 
Lá o amor é seu senhor! 
E não há dores nem prantos, 
nem sinais de trovoadas, 
nem mesmo bruxas malvadas 
(por mais que lhe tentem o espanto) 
que a façam despertar. 
  
De sorriso vivaz, 
no embalo da ciranda 
sempre, sempre a cirandar. 
Como se as flores da infância 
se guardassem indeléveis 
e se pudesse colhe-las 
num breve estender de mãos. 
Como se a inocência 
pudesse a qualquer momento 
ser facilmente resgatada 
de entre as folhas ingênuas 
do seu livrinho de estórias, 
aquele seu preferido, 
guardado em sua memória. 
  
Mulher, moça e menina. 
Três almas numa Maria! 
Augustas são todas elas, 
não porque Augusta a chamaram, 
mas porque augusta se fez! 

                                                   Isabel Pakes

Dedicado a Maria Augusta Amorim Nunes, uma amiga muito querida. (1992) 



segunda-feira, 14 de maio de 2012




Qualquer dia

  
Qualquer dia destes 
eu vou me vestir de brisa 
e brincar nas ondas  
dos teus cabelos. 
  
Qualquer dia destes 
eu vou me vestir de riso 
e me embalar na rede 
da tua boca. 
  
Qualquer dia destes 
eu vou me vestir de brilho 
e refletir no espelho 
dos teus olhos. 
  
Qualquer dia destes 
eu vou me vestir de amor 
e me guardar no cofre  
do teu coração. 

                                                        Isabel Pakes






terça-feira, 24 de abril de 2012



Conjecturas... 

Ontem ela esteve em minha casa, uma senhorinha idosa que muito vagamente se lembra das vivências por quais passou. Chegou toda alegrinha, muito sorridente, afagou o meu rosto e sentou-se no sofá, e ali ficou, como sempre faz, com os seus trejeitos próprios da idade avançada e senil, ouvindo as conversas à sua volta, porém, sem se inteirar dos assuntos, sem entender nada, mas rindo muito quando ríamos, mesmo sem saber a razão, enquanto acarinhava Sophia (minha cachorrinha) e falava com ela como se fosse outra criança. Digo outra, porque essa é a impressão que essa senhorinha me passa, de uma criança, apesar dos seus aspectos físicos muito envelhecidos, como se a própria vida tivesse se subtraído, em grande parte, de sua memória. Como se a VIDA, nela, apenas resguardasse o seu tempo de inocência. Como se tudo o mais fosse tão somente experiências terrenas necessárias, boas e não boas, que na “prova dos noves fora”, resultassem à sua VIDA, apenas o estritamente necessário para o seu desenvolvimento espiritual na rota evolucional. Conjecturas minhas, elucubrações... Nada de mais.

Isabel Pakes





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domingo, 15 de abril de 2012



A ponte


Nem a profundidade do rio,
nem o peso do trem,
nem a “fragilidade” da ponte.
Era o medo.
Medo do meu medo,
medo de pensar...
e a ponte ruir.

Fechava a cortina,
fugia de ver,
me escondia de mim.
Comprimia meu pensamento
dentro dos meus olhos rasos,
cerrados.

Não via o rio,
"salvava" o trem, porém,
 não “fortalecia” a ponte.
E o medo medrava à volta,
empanava a paisagem,
turvava a viagem.

Mas, uma noite, 
uma estrela atraiu o meu olhar.
Rútila luz, tão bela
pôs-me em êxtase a contemplar...
E o trem transpôs o rio
sem dar tempo de eu medrar.
E foi aí, nesse momento,
que aprendi a pensar. 

Meu pensamento caldeado
no fogo do coração
como o ferro foi forjado
em cruz de sublimação -
- ponte segura, perene...
Não tenho mais medo, não!
Quem ao alto estende os olhos
escapa aos temores do “chão”. 

                                                    Isabel Pakes

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domingo, 8 de abril de 2012



Haikai


Nas reviravoltas das ramas
a inconstância do vento
e o descaminho das águas.


                                                         Isabel Pakes



segunda-feira, 2 de abril de 2012



Cerquilho Cidade Menina  
  
Quando passeio meus olhos por tuas ruas e praças 
tuas rosas me saúdam e fico orgulhosa de ti! 
Lembro-me de que nasceste de um humilde vilarejo 
onde abrigavas tropeiros que na calidez do teu colo 
descansavam seus quebrantos... 
Lembro-me dos estrangeiros, audaciosos lavradores 
chegados na Estação, trazendo de além-mar 
nada mais que garra e força, nada mais que amor e fé 
e tuas terras verdejaram, vestindo-as de cafezais! 
Lembro-me dos saber adentrando tuas portas; 
tua primeira professora, teus primeiros aprendizes, 
teu borburinho infantil no velho grupo escolar! 
Lembro-me do teu grito quando a dor te estilhaçou, 
do teu pranto, do teu luto, das tuas flores soterradas... 
E de como renasceste, como a hera entre as ruínas, 
tímida, assustada, mas ansiosa por viver! 
Quantas lágrimas te banharam! Quanto suor te regou! 
Mãos de aço, incansáveis, te soergueram das cinzas 
e te fizeram mais forte, mais vigorosa ainda! 
Lembro-me de como creceste vitoriosa! 
Do verde-cana mesclando-se ao verde-cor do café... 
Das tuas indústrias ativando suas rodas denteadas 
para nunca mais parar. 
Lembro-me dos teus filhos, trabalhadores devotos 
que honram teu padroeiro, teu amado São José! 
Dos teus filhos cujos braços sempre abertos  
acolhem quem te procura buscando o teu amparo 
e cujas mãos se entrelaçam, unificados na prece, 
entoando louvor e glória à providência dos céus! 
Lembro-me da tua bandeira que baila com a brisa, 
toda vaidosa ostentando os frutos do teu trabalho, 
margeando de azul anil as páginas da tua história! 
Ah... Minha cidade menina! 
Tão robusta, mas menina. Radiante, graciosa! 
Exalas essência de rosas e provocas dentro em mim 
algo que não explico, porque não sei definir. 
Só sei que estou orgulhosa, muito orgulhosa de ti! 

                       Isabel Pakes - 1987


Cerquilho/SP - 63 anos em 03/04/2012


domingo, 25 de março de 2012



Porque eu sou... 

Sou de um tempo antes do tempo
pelo Spiritus Dei concebida,
que antes de Ser já Era.
Sou o instante de um sopro,
do excelso aflar do Amor,
que no Verbo se eterniza.
Do caos ao cosmos estou,
geração a geração 
inextinguível e evolutiva.
No inspirar e expirar
da Grande Respiração,
tenho em mim todas as vidas
dos filhos da Criação.
Porque eu sou a VIDA!
Eterna VIDA!

                                                      Isabel Pakes


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quarta-feira, 21 de março de 2012



21 DE MARÇO 
Em comemoração ao Dia Mundial da Poesia,
presto homenagem a um grande amigo poeta,
publicando aqui uma de suas obras.



POETA

A cada momento de divagação
 sente o poeta brotar-lhe no cérebro
gotículas alfabéticas que preguiçosamente escorrem
por sua veia literária e esvaem pela ponta da caneta.
Viaja o poeta no tempo, na asa do pensamento, 
não lhe importa o transcorrer das horas.
O importante é o sentimento momentâneo,
que o inspira de forma tal
e  o empurra ao encontro do papel.  
Em seu isolamento temporário, 
entregue de corpo e alma ao trabalho criativo, 
não se importa com o produto final.
Utiliza, como matéria prima, seu dom divino.
Ao poeta cabe transcrever idéias,
aos leitores deixa a apreciação final.
A imortalidade da sua obra é mero critério 
de quem, de uma forma ou outra, 
conhecer os seus trabalhos.
Nem sei dizer se, com um julgamento mais apurado, 
o poeta não será um enviado de Deus, 
destinado a amenizar, com suas  letras,
os caminhos tortuosos dos espíritos desesperados, 
ou se mero porta - voz das coisas belas e fortuitas 
da existência terrena.
Cada poeta carrega consigo uma responsabilidade enorme, 
pois, vezes sim, vezes não, escreve coisas que não quer - 
- nunca o que não sente / mesmo 
que só para registrá-las / mesmo que só para si.
Talvez depois de décadas, amareladas as páginas 
de muito dormidas, gerações vindouras lhe reconheçam
algum valor. Será...! 
Por certo, o poeta é médico.
Por certo, o poeta é louco.

             Ruy Silva Santos - membro do -NUCAB -
                  Núcleo da Cultura Afro – Brasileira,
               da Academia Sorocabana de Letras
             e do Conselho Municipal da Cultura de Sorocaba/SP






terça-feira, 6 de março de 2012



Sopra, Deus! 
    
  Sopra, Deus! 
Sopra em mim a tua centelha
para que se abrase 
e torne em cinzas 
os sentimentos medíocres 
e mais o medo e mais a culpa 
que em minha ignorância
no descuido de minha fé
eu tenha deixado 
se incrustar em meu coração
vedando-lhe o lume. 
  
Sopra, Deus! 
Sopra em mim a tua centelha
para que se inflame 
aclarando meu pensar
apurando meu sentir
recompondo-me a integridade 
para que eu possa em verdade
"templar" o teu amor em mim 
a serviço da vida a que vim. 

                                                Isabel Pakes







terça-feira, 28 de fevereiro de 2012



O amor é... 


O amor é feito água,
às vezes se evapora,
parece que seca,
que vai-se embora,
depois volta a fluir...
Como chuva torrencial
inunda o leito do mesmo rio. 

                                                   Isabel Pakes




domingo, 19 de fevereiro de 2012



Nostalgia

Nostalgia é um instante
que escapole do seu tempo
pra reavivar boas lembranças
dormentes no coração.
Teletransporta-se em flores,
cheiros, paisagens, melodias,
em noites enluaradas,
tardes chuvosas, poesias...
Circunstâncias que relembram
o que foi vivido um dia.
Doces momentos provados
num tempo do nunca mais.

Nostalgia é um instante
deslocado do passado
despertando no presente
o que na mente dormia.
É um instante de dois tempos
num mesmo tempo fundidos.
É a canção da alegria,
na voz da melancolia.

                                                    Isabel Pakes


Imagem Google