"O amor é a força mais sutil do mundo." -- Mahatma Gandhi

sábado, 17 de novembro de 2012




“Lá”

 
Existe um lugar de encantamento em que eu desperto sempre que o cansaço terreno carrega comigo para as profundezas do sono. Azul! Muito o azul é o céu e o sol translúcido lampeja dourando a Vida - única e inesgotável -  na limpidez das águas fluindo, tangendo a tudo e a todos, equiparando-os.  Lá não existe o outro. Todos são Um!

As terras estendendo-se em verdes a perder de vista têm o aspecto de um vasto tapete macio e sedoso em que se pode caminhar milhas sem se sentir os pés. Essas terras não germinam ervas daninhas e as flores que delas brotam são intensamente perfumadas, que o ar tem o gosto do néctar. Lá, em se respirando se alimenta!

Os animais não temem os homens. Antes, se harmonizam com eles, num contínuo processo de decantação da vida. É que os homens de lá vivem com serenidade. São sábios nos costumes. Não abrem feridas na terra, não envenenam o ar, não sangram as águas. São em verdade o que são. Não o que a vaidade os levaria a ostentar. Plenamente, Humanos. Reconhecem-se semelhantes na capacidade de sentir e de amar, semelhantes na luminosidade que emanam, porque se respeitam filhos do mesmo Pai. E as crianças, todas saudáveis, recendem à alegria!

Nesse lugar, onde a paz é uma constante, tudo causa a impressão nítida de transparência. Tudo, desde as pedras...  E ao vir a noite, uma infinidade de estrelas multicoloridas e um luar resplandecente,  de beleza incomum, asseguram-me que não erro em minha visão.

Quando chego lá, levada pelo abandono de minha consciência, pareço levitar tal a leveza que assumo, ao mesmo tempo, fortalecida pela energia que concentro. E quando volto de lá, à revelia de meu íntimo, só um pensamento me ocorre: Viver! Viver intensamente a esperança e nunca, nunca permitir que as agruras deste tempo demovam de mim a fé em um dia verdadeiramente despertar “lá”, nesse mundo bem melhor! 

Isabel Pakes

Imagem Google

sábado, 10 de novembro de 2012




Déjà vu


Um olhar ocasional, 
um frêmito espontâneo
e o coração pulsa mais forte.
O corpo vibra. Emoção...
Energia. Luz que se emite e permeia...
Flash de memória transcendental. Déjà vu.
Um instante de intensa euforia
num sentir que não se sabe ainda discernir.
Centelha que brilha e se recolhe sob o véu do tempo, 
para num outro dia ressurgir. Magia.
Incógnita que se busca e se faz saber
ao seu tempo de compreender. Consciência.
Almas em aparente distanciamento caminho afora,
lado a lado caminho adentro. "Ímãs". 
Comprazem-se no riso e arrimam-se na dor...  Equilibram-se
no ponto de "aderência" - afinidade - sintonia. Harmonia. 
Aprimoram-se... Ajustam-se... E se entrelaçam, enfim.
Se não ainda, por mais uma vida inteira,
numa outra vez... nos mesmos "eus". 
Que a carne não consome 
o que no espírito se concebeu. Amor.


                                               Isabel Pakes




segunda-feira, 29 de outubro de 2012



Altas horas...
 Noite quente de luar,
meus olhos me cobram o sono,
têm pressa de te sonhar.


                                             Isabel Pakes


quarta-feira, 17 de outubro de 2012




                                      Desafinado


                                            
Antes, o diapasão. O tom
                           afinado à íntima vibração.
                           Agora, um sibilo frouxo e distorcido
                           que erra pelos frios labirintos 
                           de ouvidos que se fizeram moucos
                           (temor e nulidade).

                            Ruídos externos e dissonantes
                            desvirtuaram-lhe a sonoridade
                            e o canto, antes doce como o mel
                            hoje é um silêncio que ressoa...
                            Desafinado. Mórbido. Mordaz.
                            (fel)

                                                      Isabel Pakes

  




segunda-feira, 1 de outubro de 2012



A avezinha do beiral

          Pousava ali, às tardes, a avezinha do beiral. Ia levar seu canto, seu alento... De repente, um ruído surdo cortou sua voz. Ruíra, por fim, o velho e soturno sobrado, tanto fustigar-lhe as ondas de mil pensares em turbilhão. Não mais assombraria o poeta com suas lembranças mórbidas, cheias de nódoas e farpas. Não mais. Sob os escombros das lôbregas paredes esfacelaram-se os seus desconfortos, seus entraves. Ele, o poeta, escapara ileso. Desperto do pesadelo, abriu-se à vida como olhos de condor. O coração pedia luz. E a vida resplandecia em cores, de horizonte a horizonte, sob o infinito azul, onde o tempo é sempre alvor. Em tempo, rebuscou seus anais, reviu seus feitos, atualizou conceitos... Revisou sua história com um novo olhar. Havia muito a acrescentar, novas estradas a percorrer, metas a alcançar. 

     Cálido soprava o vento. Em correntes ascendentes espalhava na atmosfera o perfume das flores que aspirara na primavera, como a receber em festas a nova estação. Hora de retomar-se, beber da própria fonte a água revitalizante, percorrer os campos interiores... Extrair o joio, aventar as ramas... Dourar a fronte sobre os trigais dos sonhos. Colher os frutos amanhados no tempo do sonhar risonho, enxertados de poesia no coração da semente, vingada à força da Vida, aos ralos raios de sol que, clandestinamente, adentravam o velho sobrado pelas fendas das janelas cerradas.

         Agora, sem mais paredes a cercear-lhe os ideais, sem mais o ranço da névoa densa a ofuscar-lhe a vista, sem mais a trava da solidão a emperrar-lhe os passos, lá vai o velho poeta, retemperado à luz clara dos dias de verão. Coração desassombrado compartilhando a colheita, a alma fértil germinando novos versos... Enquanto a avezinha se eleva sobre os escombros e segue-o... de longe... a cantar... 

Isabel Pakes






sábado, 22 de setembro de 2012



Primavera

Doce Primavera, 
conto meu tempo no teu tempo.
A cada vez que renasces eu somo...
Somo vida, ano a ano, em tua vida 
eternamente renascida. 

                                              Isabel Pakes



sábado, 1 de setembro de 2012



À Lua

Minhas reverências à Lua.
Não sendo dotada de luz própria
se reveste da luz do Sol
para abrilhantar as nossas noites
e, quando ele chega, se desnuda
sem se importar que a vejamos
pálida e fria,
e humildemente se retira
pela porta dos fundos.

                                                 Isabel Pakes