"O amor é a força mais sutil do mundo." -- Mahatma Gandhi

domingo, 24 de junho de 2012



Haikai

                                                  Dois sabiás saltitantes,
                              canto alegre e cativante...
                              Namoro de passarinhos.
     
                                                           Isabel Pakes



sexta-feira, 8 de junho de 2012




Ascensão
  
Do horizonte remoto 
o ser - cravado - aguarda 
o supremo sopro cósmico. 

Restam poucas pedras. 
Já os fiéis se aproximam... 
  
Luminárias às mãos se identificam 
e se multiplicam 
ao largo do grande templo 
que a seu tempo se conclui. 
E à dispersão da noite 
se possibilitam ascender os degraus
que dão acesso ao imenso portal. 
  
A escadaria é íngreme. Sabem, sobem.  
O patamar é estreito. Creem,
avançam. E na escalada, 
um a um, se agitam.

                                         Isabel Pakes





quarta-feira, 30 de maio de 2012



Entre o tempo e o acaso

De quando em quando ela relia o seu “caderno de recordações”, deixadas pelos amigos na adolescência “... para que mais tarde, ao folheá-lo, lembre-se com carinho...” Porém, faltava-lhe uma folha, a primeira. Ela a arrancara num ímpeto de desencanto e, pelas mãos de um amigo comum, a enviara junto de outras lembrancinhas, dentro de uma caixinha azul embalada como para presente, àquele que nela havia deixado a sua “recordação” e que, então, encontrava-se numa cidade distante, para onde fora buscar a realização de um sonho, mas, lá, diante de novas e melhores perspectivas, o transmutara... e lá permanecera. E ela parara de devanear, desviando o curso do rio de sua vida. Depois disso vira-o muito raramente, por acaso e à distância, quando em visita aos parentes, ele vinha à sua cidade. Todavia, no “caderno”... 

Ao contrário do que pensara, a ausência daquela “recordação” mais a fazia recordar... Inquietava-a mais e mais, a cada vez que o folheava. Intrigava-a. Se, pelo menos, ela se lembrasse do que ele teria escrito... Sempre tivera ótima memória, como fora esquecer? Aquela folha existiria ainda, quem sabe largada no fundo de uma gaveta, num velho armário... Haveria possibilidade, mesmo que miraculosa, de recuperá-la e reler... e saber... ? Ah, parca esperança! Parca, mas esperança.

O tempo avançava... Naquela tarde, a dor trespassava o coração de uma casa em luto, bem perto de onde morava, e ela fora prestar sua solidariedade. Sobre uma caixa de fotos, as lagrimas de uma mulher se derramavam inconsoláveis, dividindo com ela as imagens de suas lembranças, e uma criança pequenina foi até o armário, pegou outra caixa de fotos e a entregou em suas mãos. “Veja esta caixa, você.” Mas, ao colocar a mão dentro da caixa para pegar um maço de fotos, seus dedos pinçaram uma folha dobrada, em meio a elas. De pronto e trêmula, ela reconhecera aquelas bordas em linhas vermelhas que ela mesma traçara em cada página do seu “caderno”, havia mais de três décadas. Isto é meu! Exclamou eufórica, esquecida da razão por qual se encontrava ali naquela hora, para espanto da dona da casa, que por alguns minutos “suspendera” suas dores. Como, seu!? Dentro da minha caixa... Não pode ser seu! E o que é isso, que eu nunca vi?

Mas, era dela, sim! Aquela folha! Aquela “recordação”! Como fora parar dentro daquela caixa de fotos, depois de enviada para longe e há tanto tempo, vagas suposições... Mas, era fato que aquelas fotos vieram de uma outra casa, dali mesmo, de sua cidade, onde, num dia de grande faxina, uma caixa de guardados fora encontrada dentro de um velho armário. Um tanto disforme, cheirando a mofo e, sem mais razão de ser mantida, como pensara quem a encontrou, fora lançada ao fogo com tudo o que continha. Dela, nada restara. Aquela folha, provavelmente, estaria dentro dela e, se escapou do fogo, fora obra do acaso. Explicação que lhe deram. Obra do acaso também, a folha passar desapercebida a outros olhos, sabe-se lá por quanto tempo, e ser encontrada por ela, dentro daquela caixa de fotos, onde por acaso foi parar e que, casualmente, a criança entregara em suas mãos.

Assinada e datada por ele, sob uma frase... um pensamento poético dele, aquela folha continha a transcrição de uma poesia de J.G. de Araújo Jorge. Casualidades ou não, fato concreto é que por mais de trinta anos resguardada entre o tempo e o acaso, aquela “recordação” retornou às mãos dela, retomando o seu lugar no “caderno” e, casualmente, tal como diz o poeta em uns dos seus versos, quando...  “....quando o tempo branquear os teus cabelos hás de um dia mais tarde, revivê-los nas lembranças que a vida não desfez...”.

              Isabel Pakes







segunda-feira, 21 de maio de 2012

 
Retrato falado

De olhar expressivo 
que o tempo, parece, não quer violar. 
Em estado de novo, sem jaça. 
Como se os ventos de outono 
jamais hovessem soprado. 
Como se o brilho da luz da primeira hora 
nele tivesse se perpetuado. 
  
De sonhos azuis 
onde ilhou seu castelo 
e com seu príncipe valente 
para sempre se escondeu. 
Lá o amor é seu senhor! 
E não há dores nem prantos, 
nem sinais de trovoadas, 
nem mesmo bruxas malvadas 
(por mais que lhe tentem o espanto) 
que a façam despertar. 
  
De sorriso vivaz, 
no embalo da ciranda 
sempre, sempre a cirandar. 
Como se as flores da infância 
se guardassem indeléveis 
e se pudesse colhe-las 
num breve estender de mãos. 
Como se a inocência 
pudesse a qualquer momento 
ser facilmente resgatada 
de entre as folhas ingênuas 
do seu livrinho de estórias, 
aquele seu preferido, 
guardado em sua memória. 
  
Mulher, moça e menina. 
Três almas numa Maria! 
Augustas são todas elas, 
não porque Augusta a chamaram, 
mas porque augusta se fez! 

                                                   Isabel Pakes

Dedicado a Maria Augusta Amorim Nunes, uma amiga muito querida. (1992) 



segunda-feira, 14 de maio de 2012




Qualquer dia

  
Qualquer dia destes 
eu vou me vestir de brisa 
e brincar nas ondas  
dos teus cabelos. 
  
Qualquer dia destes 
eu vou me vestir de riso 
e me embalar na rede 
da tua boca. 
  
Qualquer dia destes 
eu vou me vestir de brilho 
e refletir no espelho 
dos teus olhos. 
  
Qualquer dia destes 
eu vou me vestir de amor 
e me guardar no cofre  
do teu coração. 

                                                        Isabel Pakes






terça-feira, 24 de abril de 2012



Conjecturas... 

Ontem ela esteve em minha casa, uma senhorinha idosa que muito vagamente se lembra das vivências por quais passou. Chegou toda alegrinha, muito sorridente, afagou o meu rosto e sentou-se no sofá, e ali ficou, como sempre faz, com os seus trejeitos próprios da idade avançada e senil, ouvindo as conversas à sua volta, porém, sem se inteirar dos assuntos, sem entender nada, mas rindo muito quando ríamos, mesmo sem saber a razão, enquanto acarinhava Sophia (minha cachorrinha) e falava com ela como se fosse outra criança. Digo outra, porque essa é a impressão que essa senhorinha me passa, de uma criança, apesar dos seus aspectos físicos muito envelhecidos, como se a própria vida tivesse se subtraído, em grande parte, de sua memória. Como se a VIDA, nela, apenas resguardasse o seu tempo de inocência. Como se tudo o mais fosse tão somente experiências terrenas necessárias, boas e não boas, que na “prova dos noves fora”, resultassem à sua VIDA, apenas o estritamente necessário para o seu desenvolvimento espiritual na rota evolucional. Conjecturas minhas, elucubrações... Nada de mais.

Isabel Pakes





Imagem Google



domingo, 15 de abril de 2012



A ponte


Nem a profundidade do rio,
nem o peso do trem,
nem a “fragilidade” da ponte.
Era o medo.
Medo do meu medo,
medo de pensar...
e a ponte ruir.

Fechava a cortina,
fugia de ver,
me escondia de mim.
Comprimia meu pensamento
dentro dos meus olhos rasos,
cerrados.

Não via o rio,
"salvava" o trem, porém,
 não “fortalecia” a ponte.
E o medo medrava à volta,
empanava a paisagem,
turvava a viagem.

Mas, uma noite, 
uma estrela atraiu o meu olhar.
Rútila luz, tão bela
pôs-me em êxtase a contemplar...
E o trem transpôs o rio
sem dar tempo de eu medrar.
E foi aí, nesse momento,
que aprendi a pensar. 

Meu pensamento caldeado
no fogo do coração
como o ferro foi forjado
em cruz de sublimação -
- ponte segura, perene...
Não tenho mais medo, não!
Quem ao alto estende os olhos
escapa aos temores do “chão”. 

                                                    Isabel Pakes

Imagem Google