"O amor é a força mais sutil do mundo." -- Mahatma Gandhi

domingo, 9 de dezembro de 2012



Boa noite, Jesus!

 
Jesus, o Senhor disse um dia que quem a mim não recebesse
em seu reino não entraria, mas olha pra mim!
Eu sou feio, pobre, sem graça... 
Passo os dias nas ruas e as noites aqui mesmo, na praça.
Além disso, olha bem, eu sou escurinho.
Quem vai querer me fazer um carinho?
Só o Senhor mesmo, Jesus, só o Senhor!
Por isso eu quero lhe pedir um favor:
na próxima lista que o Senhor chamar coloca meu nome,
 vem me buscar. 
Olha, eu não tenho sapatos, 
minhas roupas estão sujas e gastas, 
mas a minha alma, eu garanto, é casta!
A cola é só pra enganar a miséria, a fome...
Mas a minha alma não cheira. 
Alma não come!
Coloca meu nome Jesus, eu quero ir pro céu. 
Não é justo que eu fique jogado ao léu.
Mas me chame de noite, está bem?
Porque assim, no caminho, eu vejo as estrelas bem de pertinho.
Elas são tão bonitas!
São elas que tomam conta de mim quando venho dormir.
Eu sou tão sozinho! Eu não tenho ninguém! 
A minha mãe me deixou, disse que voltaria, mas nunca voltou. 
A minha mãe me esqueceu.
E o meu pai... dos dois que eu tive nenhum era o meu.
Meu pai de verdade nem sei onde vive, não sei o seu nome...
Pra ele sou um filho que nunca nasceu.
Está vendo, Jesus, minha cruz é pesada!
Aqui embaixo, eu não conto com nada.
O Senhor é minha última esperança.
No que o Senhor disse eu tenho confiança: 
"Vinde a mim..." Aquelas palavras bonitas que o Senhor sabe bem,
que falam que o céu me pertence também!
E então, meu Jesus, o Senhor me entendeu?
Mas não se preocupe, se não der, não deu.
Se o Senhor que é o Senhor, pra ir para o céu
carregou sua cruz, quem sou eu pra ir assim, só por querer... 
Eu compreendo, Jesus. Depois, amanhã é outro dia.
Quem sabe alguém possa vir e querer me levar
pra uma casa, pra um lar... 
Alguém que traga nos olhos um brilho de estrelas,
alguém cheio de luz, 
alguém que conheça o Senhor,
alguém transbordando de amor!
Boa noite, Jesus!

                     Isabel Pakes




terça-feira, 27 de novembro de 2012






Deslizou a luz do dia
pelo manto da noite
respingando estrelas.
Voltará ao arrebol
para recolhê-las
e se recompor em sol.

                                                    Isabel Pakes




sábado, 17 de novembro de 2012




“Lá”

 
Existe um lugar de encantamento em que eu desperto sempre que o cansaço terreno carrega comigo para as profundezas do sono. Azul! Muito o azul é o céu e o sol translúcido lampeja dourando a Vida - única e inesgotável -  na limpidez das águas fluindo, tangendo a tudo e a todos, equiparando-os.  Lá não existe o outro. Todos são Um!

As terras estendendo-se em verdes a perder de vista têm o aspecto de um vasto tapete macio e sedoso em que se pode caminhar milhas sem se sentir os pés. Essas terras não germinam ervas daninhas e as flores que delas brotam são intensamente perfumadas, que o ar tem o gosto do néctar. Lá, em se respirando se alimenta!

Os animais não temem os homens. Antes, se harmonizam com eles, num contínuo processo de decantação da vida. É que os homens de lá vivem com serenidade. São sábios nos costumes. Não abrem feridas na terra, não envenenam o ar, não sangram as águas. São em verdade o que são. Não o que a vaidade os levaria a ostentar. Plenamente, Humanos. Reconhecem-se semelhantes na capacidade de sentir e de amar, semelhantes na luminosidade que emanam, porque se respeitam filhos do mesmo Pai. E as crianças, todas saudáveis, recendem à alegria!

Nesse lugar, onde a paz é uma constante, tudo causa a impressão nítida de transparência. Tudo, desde as pedras...  E ao vir a noite, uma infinidade de estrelas multicoloridas e um luar resplandecente,  de beleza incomum, asseguram-me que não erro em minha visão.

Quando chego lá, levada pelo abandono de minha consciência, pareço levitar tal a leveza que assumo, ao mesmo tempo, fortalecida pela energia que concentro. E quando volto de lá, à revelia de meu íntimo, só um pensamento me ocorre: Viver! Viver intensamente a esperança e nunca, nunca permitir que as agruras deste tempo demovam de mim a fé em um dia verdadeiramente despertar “lá”, nesse mundo bem melhor! 

Isabel Pakes

Imagem Google

sábado, 10 de novembro de 2012




Déjà vu


Um olhar ocasional, 
um frêmito espontâneo
e o coração pulsa mais forte.
O corpo vibra. Emoção...
Energia. Luz que se emite e permeia...
Flash de memória transcendental. Déjà vu.
Um instante de intensa euforia
num sentir que não se sabe ainda discernir.
Centelha que brilha e se recolhe sob o véu do tempo, 
para num outro dia ressurgir. Magia.
Incógnita que se busca e se faz saber
ao seu tempo de compreender. Consciência.
Almas em aparente distanciamento caminho afora,
lado a lado caminho adentro. "Ímãs". 
Comprazem-se no riso e arrimam-se na dor...  Equilibram-se
no ponto de "aderência" - afinidade - sintonia. Harmonia. 
Aprimoram-se... Ajustam-se... E se entrelaçam, enfim.
Se não ainda, por mais uma vida inteira,
numa outra vez... nos mesmos "eus". 
Que a carne não consome 
o que no espírito se concebeu. Amor.


                                               Isabel Pakes




segunda-feira, 29 de outubro de 2012



Altas horas...
 Noite quente de luar,
meus olhos me cobram o sono,
têm pressa de te sonhar.


                                             Isabel Pakes


quarta-feira, 17 de outubro de 2012




                                      Desafinado


                                            
Antes, o diapasão. O tom
                           afinado à íntima vibração.
                           Agora, um sibilo frouxo e distorcido
                           que erra pelos frios labirintos 
                           de ouvidos que se fizeram moucos
                           (temor e nulidade).

                            Ruídos externos e dissonantes
                            desvirtuaram-lhe a sonoridade
                            e o canto, antes doce como o mel
                            hoje é um silêncio que ressoa...
                            Desafinado. Mórbido. Mordaz.
                            (fel)

                                                      Isabel Pakes

  




segunda-feira, 1 de outubro de 2012



A avezinha do beiral

          Pousava ali, às tardes, a avezinha do beiral. Ia levar seu canto, seu alento... De repente, um ruído surdo cortou sua voz. Ruíra, por fim, o velho e soturno sobrado, tanto fustigar-lhe as ondas de mil pensares em turbilhão. Não mais assombraria o poeta com suas lembranças mórbidas, cheias de nódoas e farpas. Não mais. Sob os escombros das lôbregas paredes esfacelaram-se os seus desconfortos, seus entraves. Ele, o poeta, escapara ileso. Desperto do pesadelo, abriu-se à vida como olhos de condor. O coração pedia luz. E a vida resplandecia em cores, de horizonte a horizonte, sob o infinito azul, onde o tempo é sempre alvor. Em tempo, rebuscou seus anais, reviu seus feitos, atualizou conceitos... Revisou sua história com um novo olhar. Havia muito a acrescentar, novas estradas a percorrer, metas a alcançar. 

     Cálido soprava o vento. Em correntes ascendentes espalhava na atmosfera o perfume das flores que aspirara na primavera, como a receber em festas a nova estação. Hora de retomar-se, beber da própria fonte a água revitalizante, percorrer os campos interiores... Extrair o joio, aventar as ramas... Dourar a fronte sobre os trigais dos sonhos. Colher os frutos amanhados no tempo do sonhar risonho, enxertados de poesia no coração da semente, vingada à força da Vida, aos ralos raios de sol que, clandestinamente, adentravam o velho sobrado pelas fendas das janelas cerradas.

         Agora, sem mais paredes a cercear-lhe os ideais, sem mais o ranço da névoa densa a ofuscar-lhe a vista, sem mais a trava da solidão a emperrar-lhe os passos, lá vai o velho poeta, retemperado à luz clara dos dias de verão. Coração desassombrado compartilhando a colheita, a alma fértil germinando novos versos... Enquanto a avezinha se eleva sobre os escombros e segue-o... de longe... a cantar... 

Isabel Pakes